Abuso, isto não é um homem nu

“Tobias”, “Renato” e “Miguel” pertencem à série de pinturas intitulada “Abuso”, de Michele Martines. Cada uma das telas, batizada com um nome próprio, exibe uma figura masculina em uma situação que remete aos anúncios publicitários. Para compô-las, Michele parte de imagens fotográficas pesquisadas na internet, mesclando-as e manipulando-as de forma a alterar as legendas, as cores e padronagens de acordo com a proposta de cada trabalho. Com a referência em mãos, a artista parte para a pintura, meio que define como um “amor verdadeiro” -  “sempre senti prazer no fazer manual, em misturar cores, arrastar o pincel sobre a tela e vencer o desafio da imagem”, conta.

Ao pintar corpos de homens, Michele parece inverter a lógica da extensa iconografia na qual a mulher figura como objeto do olhar masculino. Desde as pinturas renascentistas até as campanhas publicitárias, que lançam mão de corpos atraentes como elementos centrais de persuasão, predominou uma relação na qual o homem participa como o sujeito que olha, enquanto a mulher, cuja imagem foi associada às noções de beleza, graça e suavidade, comparece como objeto deste olhar. A artista conta que a série Abuso foi então motivada por um questionamento - “por que a beleza física do corpo masculino ainda é tão pouco explorada na pintura?”

A linguagem publicitária explora a mercantilização do corpo para produzir uma excitação voyeurística. Em alguns casos, a imagem da mulher é equiparada ao próprio produto anunciado, ou pelo menos ao prazer ou à sensação proporcionados pelo seu consumo, como ocorre no caso emblemático dos anúncios de cerveja direcionados ao público masculino. Michele se apropria desta linguagem e parodia esta estratégia ao retratar o torso nu sexualmente atraente de um homem negro em um anúncio de chocolate, popularmente um fetiche feminino. Desta forma, sua série explora a capacidade de reificação das imagens, mas ao eleger corpos masculinos, desafia o repertório hegemônico.

 

Elisa Maia, Revista DasArtes, ano 2016.