Cenas Urbanas

“A observação é o princípio de minha prática pictórica.” Acompanho o trabalho de Michele Martines já há alguns anos e atesto que a afirmação permanece verdadeira, no sentido de fundar o trabalho da artista. O conceito de observação pode ser entendido, aqui, tanto como ato realizado pelo olho que deseja ver, quanto como do pensamento que deseja conhecer e entender o que é feito, como é feito e porque é feito, relacionando-o com a história e a memória da prática artística e pictórica.

À observação seguem-se outros processos na elaboração das séries que se sucedem desde 2003: seleção, apropriação, associação de elementos díspares e articulação dos mesmos no plano pictórico, num fazer lentamente elaborado, nas camadas de tinta que vão se sobrepondo e, quiçá, juntando-se a outras matérias em alguns momentos. É perceptível que as decisões no processo poético vão sendo tomadas com base em aspectos do que foi observado e de acordo com um direcionamento dado previamente por um feixe de intenções – que exerce um papel disparador já na escolha daquilo que vai ser observado.

A fotografia é um meio que auxilia neste ato de ver, na medida em que atua na transformação em imagem daquilo que estará presente na pintura, anteriormente à sua transposição para o suporte pictórico. A escolha da fotografia como referente é intencional, no sentido de relacionar dados da realidade com o plano da representação, pois o que é dado pela imagem fotográfica já não é mais a coisa em si, senão uma imagem possível da coisa. Com a atuação sobre essa possibilidade de imagem surge ainda uma outra, engendrada pelo uso dos meios da pintura, que é de outra ordem, mais visceral. Aliam-se, no processo poético em questão, procedimentos de distintas naturezas: uma parte do fazer é mediada pelo uso da máquina fotográfica e de outros aparatos tecnológicos (como a projeção, por exemplo), e outra parte é construída pelo labor manual inerente às práticas do desenho e da pintura. Em ambas, se faz presente a subjetividade da artista, que escolhe o que e como fotografar e o que e como pintar, a partir das fotografias.

Observando a série Cenas urbanas, sabemos de antemão, pelos títulos, e por elementos constantes nas telas, que se tratam de vistas da paisagem urbana, frequentada e fotografada por alguém que esteve lá – pelos escritos da artista sabemos que ela mesma fotografa lugares que visita, com intenção de fazer suas pinturas. Poderemos até reconhecer alguns dos lugares, se os conhecermos. Mas não será o mesmo lugar que conhecemos. O tratamento dado à imagem produz um efeito de estranhamento. O modo de utilizar a cor, especialmente, produz uma outra visão do que é familiar. Cria-se uma visão particular da realidade, que não é mais aquilo que representa. Talvez seja mais da ordem do real, entendido como aquilo que subjaz ao olhar, como o que escapa, que é fluido e não se deixa fixar.

Poderíamos associar as sensações produzidas por esta série a algumas produzidas por pinturas de Edward Hopper ou de Giorgio De Chirico? Penso nos vazios que entremeiam as figuras, no corpo se deslocando pelo espaço arquitetônico, fugaz e absorto em elucubrações indecifráveis, projetando ou não suas sombras e desfilando seu anonimato. Mas, aqui, de maneira mais leve, matizada pela suavidade da paleta utilizada. Estas figuras contam alguma história? De quem é esta memória? Os “orelhões”, os postes de luz, as caixas de correio e outros apetrechos do cenário urbano estão lá, impondo-se à passagem dos corpos e à passagem de nosso olhar desejoso por ver. Nesta série somos confrontados com nosso desejo de ver os detalhes, as minúcias, de apreciar aquilo que o olhar atento da pintora nos ajuda a enxergar, através de seus filtros de luz, de cor, de foco...  Mas só enxergamos aquilo que nos é dado a ver pelas escolhas da artista. Talvez sejamos impedidos de ver o que mais nos interessaria, em função destas escolhas. Há um jogo aí, entre o que procuramos e o que encontramos para olhar. Queremos ver uma caixa de correio em primeiro plano, ao lado de um poste enferrujado e na frente de uma lixeira cor de laranja? Ou estes elementos barram nossa sede de olhar mais além? Para o quê?

O trabalho de Michele Martines provoca a criação de um campo reflexivo, de reverberações entre elementos diversos, com a marca da ambigüidade, nos remetendo à ambigüidade presente em nós mesmos e nos proporcionando a criação de projeções pessoais, especulares e fantasmáticas. Oportuniza, também, o estabelecimento de relações entre produções contemporâneas e históricas no campo da pintura e de outras formas de representação, que põem em jogo o olhar.

 

Prof.ª Dr.ª Andrea Hofstaetter, Departamento de Artes Visuais/IA/UFRGS, texto curatorial da exposição "Ruas de estar", 2018.